Zonas energéticas em Igatu

No sítio Igatu as zonas energéticas de 0 a 5 propostas pela permacultura seguem à risca o tempo despendido para manejo de cada área e seus elementos.

O sítio possui 2,5Ha onde são manejados nas zonas de 0 a 4 apenas 1,0Ha. O restante da área (1,5Ha) corresponde a porção de floresta preservada (zona 5) cuja a principal função é a produção de águas.

A casa representa a Zona 0, onde passamos a maior parte do tempo. É daqui que partem as ideias de planejamento e manejo do sítio.

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Zonas energéticas em Igatu. Olhando-se de Oeste para Leste. Foto obtida em 2016.

Envolvendo a casa está a Zona 1, onde produzimos alimentos de ciclo curto, tratamos nossos efluentes, estocamos nossa lenha, ferramentas, compostamos nossos resíduos orgânicos e cultivamos plantas bebês no viveiro.

Logo após temos a Zona 2, que compreende o açude e seu entorno. Nessa zona há a criação de peixes e o cultivo de biomassa vegetal aquática, que é utilizada para adubo nos canteiros da horta mandala da Zona 1. O  açude é também a grande estrela do verão, quando os banhos são corriqueiros.

Envolvendo o açude e também a Zona 1, está a Zona 3, que compreende Sistemas Agroflorestais que preenchem áreas de encosta voltadas para Oeste, Leste e Sul, compreendendo também as margens de um córrego que limita uma de nossas extremas.

Indo em direção a Leste está a Zona 4, que é constituída de árvores plantadas de eucalipto e espontâneas utilizadas para lenha (biomassa) e fornecimento de madeira para mourões, colunas, etc.

Um pouco mais a Leste encontra-se a Zona 5, que compreende a floresta atlântica preservada e onde temos a captação de águas do sítio. Um circuito de trilhas nessa Zona permite ver como funciona a floresta e de onde parte da cidade de São Pedro de Alcântara capta suas águas de abastecimento público.

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Zonas energéticas em Igatu da perspectiva de Sudoeste para Nordeste. Foto obtida em 2014.

 

 

O açude, os peixes e a biomassa aquática

Temos um açude de bom tamanho em nossa zona 2, há cerca de 30m da casa. Quando chegamos em Igatu este açude estava tomado de braquiárias e com nível d’água reduzido, devido a ruptura da taipa em um evento chuvoso de 2008. Além disso, vizinhos antigos nos repassaram a informação de que os peixes morriam congelados no inverno e também por falta de oxigênio na água. Ambas situações fazem sentido, pois temos temperaturas negativas no inverno e o açude é abastecido por duas sugências em seu leito, oriundas de águas  subterrâneas, que contém pouco oxigênio dissolvido. Dentro deste cenário, esvaziamos o açude, instalamos um ladrão de fundo que não chegava a drenar o açude totalmente e tentamos controlar as braquiárias com a roçadeira, mas sem sucesso.

Foi então que decidimos por uma ação mais agressiva, intervir com retro-escavadeira para instalar um ladrão de base, capaz de drenar o açude e criar um passeio em volta do mesmo para inserção de mudas frutíferas. Adicionalmente, aproveitamos a ação da retro-escavadeira para raspar o lodo do fundo para ser usado nos canteiros da mandala presente na zona 1 e para abrir a vala da Bacia de Evapo Tranpiração.

Logo após a reforma do açude, introduzimos alevinos de carpa e tilápia, espécies disponíveis em uma compra coletiva organizada pela extensão rural em nosso município. Nossos 400m2 de área de açude poderiam receber até 400 alevinos sugeridos pela Epagri, mas optamos por trabalhar com 90, pois a intenção seria de deixar os peixes buscarem alimento por conta própria.

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Detalhe da Salvinia auriculata

Seguido dos alevinos, introduzimos um espécie de planta aquática, a Salvinia auriculata, para geração de biomassa e posterior utilização como cobertura morta nos canteiros da zona 1. Além dessa função, com o passar do tempo percebemos que a planta passou a servir de alimento para os peixes, sobretudo para a tilápia e também como regulador térmico, tanto para dias frios como para quentes, mantendo menor a amplitude de temperaturas. Assim esta planta atendeu duas necessidades.

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Theo coordenando os trabalhos de remoção das plantas e seu estoque na margem.

A falta de oxigênio foi vencida com a instalação de uma mangueira que deságua por gravidade as águas excedentes do reservatório de abastecimento da casa, por meio um ladrão de nível. Este mesmo ladrão do reservatório também nos avisa se houve interrupção no abastecimento de água, que é captada no riacho que define o limite sul de Igatu.

Passado 1 ano da inserção dos alevinos, vemos agora o aparecimento de duas novas gerações. As tilápias continuam mantendo a Salvinia auriculata como dieta, principalmente a porção das raízes que ficam coalhadas de nutrientes. Já as carpas, seguem comendo a braquiária e mantendo a sua proliferação controlada. Mesmo a braquiária sendo uma espécie bastante invasora, uma vez controlada, ela passa a servir como elemento estabilizador de margens, sobretudo a da taipa do açude. Após a reforma do açude não foram verificados processos de ingestão de solos de margens pelas carpas, evitando-se, assim, uma possível ruptura de taipa, muito verificada em condições de superpopulação.

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A pescaria a nossa alimentação. Mais uma das funções do açude.

Muito em nosso município consideram a Salvinia auriculata um problema, uma praga, pois é invasora. Este caráter invasor é na verdade um grande trunfo, pois se visto de forma oportuna, possibilita fertilidade e proteção aos solos de cultivo.

No último verão podemos aproveitar o sucesso do casamento de elementos dentro da zona 2 e pescamos alguns peixes em companhia dos sempre amigos Zé paulo e Simone.

Alunos da UFSC visitam Igatu.

Turma percorrendo o Sistema Agroflorestal implantado na zona 3.
Turma percorrendo o Sistema Agroflorestal implantado na zona 3.

Alunos do Curso de Planejamento Permacultural da UFSC visitaram o sítio para prática dos ensinamentos teóricos.

Foram abordadas as relações entre zonas de planejamento e realizada uma oficina de montagem de uma espiral de ervas no centro da horta mandala.

A visita é parte curricular da disciplina Introdução à Permacultura, ofertada semestralmente por professores da UFSC ligados aos cursos de história, geografia, agronomia, biologia, agronomia e engenharia ambiental.

O Sítio Igatu é parceiro desta iniciativa e pode ser considerado como uma laboratório de ensino prático onde as experiências podem ser vividas e compreendidas.

Que venham as próximas turmas, a porteira estará aberta.

Tratamento de águas residuais

O sistema de “tratamento” de águas negras e cinzas da casa apresentava problemas, pois havia mistura de ambas fazendo com que uma água fétida desaguasse no riacho que passa ao lado do sítio. Esta situação, além de malcheirosa, nos deixava desconfortável com relação a qualidade das águas que estávamos entregando ao ambiente.

Como a casa – incluindo o banheiro – já estava pronta quando adquirimos o sítio, decidimos optar pela adoção do par “bacia de evapotranspiração” (BET) para águas negras (proveniente do vaso sanitário) e “círculo de bananeiras” (CB) para águas cinzas (proveniente dos demais usos).

Para implementar esta dupla BET/CB, a instalação antiga, constituída de dois reservatórios enterrados, foi aproveitada para o escoamento das águas cinzas. Desta forma houve uma redução de custos com novas tubulações.

As atenções do sistema de tratamento se voltaram à construção da BET, que foi baseada nas excelentes explicações do colega permacultor Itamar do sítio Setelombas, concebida com algumas pequenas modificações que serão descritas a seguir. Os passos da execução são mostrados abaixo:

1) A abertura da vala com 8m3 foi dimensionada para 4 pessoas em uso continuado. A escavação foi feita com uso de retroescavadeira e levou 1 hora ao custo de R$ 80,00. A vala tem dimensões de 4x2x1 m e seu dimensionamento tem como base no número de pessoas, sendo indicado 2m3/pessoa.

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A cava com dimensões de 4 x 2 x 1 metros, totalizando 8m3.

Procure deixar os materiais que serão usados no preenchimento ao lado da cava para facilitar seu deslocamento.

2) A impermeabilização da vala foi feita com reboco a base de argamassa e cimento. Estruturada com tela de arame, a impermeabilização consumiu 1/2 m3 de areia (R$ 26,50), 1/2 m3 de argamassa (R$ 34,00) e 3,5 sacos de cimento (R$ 83,00). As paredes da vala foram bem limpas para evitar que raízes ou folhas se misturassem ao reboco. Para executar a impermeabilização, foram necessários 3 passos.

O Chapisco foi executado com mistura de 1/2 parte de cimento, para 2 partes de areia e uma de pedrisco (1/2 – 2 – 1). Este passo foi necessário para facilitar a adesão do cimento a superfície do solo. A superfície do solo deve estar seca para facilitar a agregação do chapisco.

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Passo 1: Chapisco com mistura de cimento + areia + pedrisco.

A colocação da tela consumiu 12 metros lineares de tela com 1,2m de altura (R$ 104,00). Como a vala apresenta apenas 1,0m de altura, a bainha da tela foi dobrada junto ao fundo para melhorar a junção entre as laterais e o fundo. A fixação da tela junto as paredes da vala foi realizada com seguimentos de ferro 4.2, sendo as barras de 12m cortadas em segmentos de 1,2m. Foram utilizadas 2 barras (R$ 9,34). Espetamos 20cm de cada barra no chão e as transpassamos pela malha da tela. Nos locais onde ficaram bolsões na tela, a mesma foi presa com arame 12 de cerca (foram utilizadas sobras).

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Passo 2 – Colocação da tela com 1,2 m de altura. Dobre a bainha da tela junto ao fundo para depois “ligar” ao concreto do fundo.

A execução do reboco contou com 1 dia de pedreiro (R$ 150,00) e uma massa com mistura de cimento (1/2), areia média (2) e argamassa (2). Após a conclusão, algumas “molhadas” na superfície impermeabilizada pelo reboco foram feitas, para ajudar na melhor cura da massa. Aguardamos por três dias para que a cura estivesse efetiva. Somente após esta cura é que começamos o preenchimento.

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Impermeabilização completa.

4) O preenchimento da BET foi realizado com pneus e materiais granulares, com tamanhos desde pedaços (caliça/entulho) + pedra pulmão, passando por brita, pedrisco, areia e, finalmente, o solo local. Os passos de preenchimento são apresentados a seguir.A câmara séptica é estruturada por pneus enfileirados. Perfuramos um deles para inserir o tubo de entrada (adução) de efluente (água negra).

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Furos no pneu para inserção do tubo de adução de águas negras (o que vem do vaso sanitário).
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Detalhe do rompimento dos arames internos ao pneu com alicate de corte.
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Detalhe do tudo inserido no pneu.
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Separe alguns pneus com pedaços de caliça para facilitar a comunicação com as águas do “tubo” séptico e o material envolvente.
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Antes de preencher com a caliça, calce os pneus para não haver deslocamentos.

A camada de caliça/entulho foi preenchida até a altura dos pneus. Aqui utilizamos um contrapiso antigo e tivemos de agregar rachão (pedra pulmão). Procuramos utilizar somente materiais de restos para baratear, mas como não tínhamos essa opção, gastamos mais com a adição de 2m3 de pedra pulmão (R$ 138,00). Após esta camada, fizemos marcas no tubo de entrada do efluente, com os níveis a serem atingidos com cada material. Foi utilizado 1,0m de tudo 100mm (R$ 2,00) e um joelho de 100mm (R$ 6,00). Os demais tubos e conexões para fazer a adução das águas à BET e ao CB custaram R$ 70,00.

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Marca no tudo para definir o limite superior das camadas de preenchimento.

Após veio a colocação da camada de brita 3/4 que consumiu 1/2 m3 (R$ 40,00). A camada ficou com 7cm de espessura em média.

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Segunda camada de preenchimento com brita 3/4.

Acima desta brita foi colocado o predisco, que consumiu 1/2 m3 (R$ 40,00) resultando em uma camada de 6cm de espessura em média. Li em alguns lugares que neste caso pode ser utilizado o geotêxtil no lugar do pedrisco. Neste caso usa-se brita 3/4 em substituição desta camada de pedrisco. Em nosso caso, optamos pelo uso do predisco para ir gradualmente diminuindo a granulometria do material em direção topo da BET, estimulando, assim, o fenômeno de capilaridade da água.

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Terceira camada de preenchimento com pedrisco.

Depois veio a camada de areia média que também utilizou 1/2 m3 de volume (R$ 26,50), gerando uma camada de 12 cm de espessura.

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Quarta camada de preenchimento. Uso de areia média.

Acima veio o preenchimento com solo local. Aqui no sítio temos uma topografia muito acidentada e aproveitamos para abrir os terraços que se tornarão o viveiro de mudas dentro da zona 1. O preenchimento com solo local ficou na forma de um largo canteiro com uma elevação no sentido alongado da BET com intuito de escoar as águas da chuva que caem sobre a mesma.5) O plantio de mudas envolveu 0  transplante de indivíduos de bananeiras e inhame, retiradas do próprio sítio. Depois que as bananeiras crescerem suficientemente para gerar boa quantidade de sombra, serão transplantadas mudas de helicônia, outra planta de folha larga também existente no local.6) Para evitar entrada de águas externas na BET, foi inserida uma vala de escoamento à montante (parte de cima topograficamente – lado esquerdo da foto).A jusante da BET uma vala de infiltração, com a largura de uma pá, foi implantada e preenchida com brita, areia (restos) e um tubo corrugado de dreno com 100mm de diâmetro e 5m de comprimento (R$ 25,00). Esta vala de infiltração é necessária para dar vazão ao nível superior do solo (horizonte A), que possui boa porosidade e permeabilidade para conduzir excessos em caso de longo período de baixa evapotranspiração (chuvas).

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Cobertura com o solo local e inserção das mudas de bananeiras e inhame.

7) Para o tratamento das águas cinzas, as advindas da cozinha, pia e chuveiro do banheiro, máquina de lavar roupas e tanque, o método escolhido foi o tradicional círculo de bananeiras, também indicado pelo colega Itamar do Sítio Sete Lombas. O Círculo de bananeiras foi instalado ao lado da BET.

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Círculo de bananeiras (direita) e BET (esquerda). Foto de novembro de 2013, nove meses após a implantação.

O esquema implantado ficou conforme o desenho a seguir.

Esquema final de implantação.
Esquema final de implantação.

Os custos de implantação são apresentados na tabela a seguir. Os valores em vermelho podem ser substituídos. No caso da mão de obra, foi necessária a contratação de um pedreiro, pois sou um pedreiro de mão cheia (cheia de massa).  A pedra pulmão pode ser substituída por caliça. Em nosso caso a caliça existente no sítio não foi suficiente para preencher a BET até a altura dos pneus e o valor para transportar uma caliça doada seria superior ao cobrado pela pedra pulmão na madeireira.O tempo de execução é difícil de precisar. Como tive auxílio de apenas 1 dia com ajudante (o pedreiro) posso dizer que:

  • Setembro de 2012 – abertura da vala;
  • Janeiro de 2013 – início da impermeabilização e preenchimento da BET;
  • Fevereiro de 2013 – inserção de mudas e finalização do círculo de bananeiras.

Um muito obrigado à Marcelo Venturi, colega permacultor e especialista em sistemas sanitários, que veio verificar o andamento da obra e sugeriu importantes modificações que foram adotadas.Em resumo, deu trabalho, mas me sinto confortável para continuar a ensinar em sala de aula este sistema de tratamento de esgoto e……não mandamos mais oferendas indesejáveis para Iemanjá.

Item Valor gasto
Hora de retroescavadeira R$ 80,00
Areia R$ 53,00
Argamassa R$ 34,00
Cimento R$ 83,00
Tela de arame R$ 104,00
Barra de ferro R$ 9,34
Mão de obra R$ 150,00
Pedra pulmão (brita 4) R$ 138,00
Brita ¾ R$ 40,00
Pedrisco R$ 40,00
Tubos e conexões R$ 78,00
Tubo corrugado dreno R$ 25,00
Total R$ 834,34

A casa e um desafio

Quando viemos viver no Sítio Igatu já existia uma casa simples e construída dentro de moldes convencionais, mas com alguns elementos que nos agradaram, como:

  • Ter piso suspenso do chão, que inibe a ascensão de águas e reduz a umidade;
  • Construída com tijolos maciços provenientes de uma olaria distante apenas 90km;
  • Coberta com telhas de barro, também oriundas de muito próximo (150km distante) e que permitem um bom isolamento térmico e acústico;
  • Possibilitar expansão em duas direções, no caso Norte e Sul.
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Como era a casa quando aqui chegamos.

Dentre alguns itens que não nos agradaram podemos destacar:

  • Foi usado muita madeira de proveniência amazônica (angelin);
  • Sistema de tratamento de esgotos (águas cinzas e negras) inadequado;
  • Luminosidade reduzida no inverno;
  • Circulação de ar subdimensionada;

Bem! Tudo isso para dizer que a casa necessitava de adequações para melhorar sua eficiência energética. Não estamos falando de energia elétrica, mas é claro que o consumo dela também será influenciado, falamos do fluxo energético pela estrutura.

Creio que esta é a mesma situação de muitas pessoas, tentar transformar uma casa convencional em uma casa energeticamente eficiente. Devido ao tempo que passamos dentro da casa (zona 0), creio ser este um dos maiores desafios dentro do Sítio Igatu.