Tratamento de águas residuais

A cava com dimensões de 4 x 2 x 1 metros, totalizando 8m3.
A cava com dimensões de 4 x 2 x 1 metros, totalizando 8m3.

O sistema de “tratamento” de águas negras e cinzas da casa apresentava problemas, pois havia mistura de ambas fazendo com que uma água fétida desaguasse no riacho que passa ao lado do sítio. Esta situação, além de mal-cheirosa, nos deixava desconfortável com relação a qualidade das águas que estávamos entregando ao ambiente.

Como a casa – incluindo o banheiro – já estava pronta quando adquirimos o sítio, decidimos optar pela adoção do par “bacia de evapotranspiração” (BET) para águas negras (proveniente do vaso sanitário) e “círculo de bananeiras” (CB) para águas cinzas (proveniente dos demais usos).

Para implementar esta dupla BET/CB, a instalação antiga, constituída de dois reservatórios enterrados, foi aproveitada para o escoamento das águas cinzas. Desta forma houve uma redução de custos com novas tubulações.

As atenções do sistema de tratamento se voltaram à construção da BET, que foi baseada nas excelentes explicações do colega permacultor Itamar do sítio Setelombas,  concebida com algumas pequenas modificações que serão descritas a seguir. Os passos da execução são mostrados abaixo:

1) A abertura da vala com 8m3 foi dimensionada para 4 pessoas em uso continuado. A escavação foi feita com uso de retroescavadeira e levou 1 hora ao custo de R$ 80,00. A vala tem dimensões de 4x2x1 m e seu dimensionamento tem como base no número de pessoas, sendo indicado 2m3/pessoa.

Procure deixar os materiais que serão usados no preenchimento ao lado da cava para facilitar seu deslocamento.

2) A impermeabilização da vala foi feita com reboco a base de argamassa e cimento. Estruturada com tela de arame, a impermeabilização consumiu 1/2 m3 de areia (R$ 26,50), 1/2 m3 de argamassa (R$ 34,00) e 3,5 sacos de cimento (R$ 83,00). As paredes da vala foram bem limpas para evitar que raízes ou folhas se misturassem ao reboco. Para executar a impermeabilização, foram necessários 3 passos.

O Chapisco foi executado com mistura de 1/2 parte de cimento, para 2 partes de areia e uma de pedrisco (1/2 – 2 – 1). Este passo foi necessário para facilitar a adesão do cimento a superfície do solo. A superfície do solo deve estar seca para facilitar a agregação do chapisco.

 Chapisco com mistura de cimento + areia + pedrisco.   Passo 1 – Chapisco com mistura de cimento + areia + pedrisco.

A colocação da tela consumiu 12 metros lineares de tela com 1,2m de altura (R$ 104,00). Como a vala apresenta apenas 1,0m de altura, a bainha da tela foi dobrada junto ao fundo para melhorar a junção entre as laterais e o fundo. A fixação da tela junto as paredes da vala foi realizada com seguimentos de ferro 4.2, sendo as barras de 12m cortadas em segmentos de 1,2m. Foram utilizadas 2 barras (R$ 9,34). Espetamos 20cm de cada barra no chão e as transpassamos pela malha da tela. Nos locais onde ficaram bolsões na tela, a mesma foi presa com arame 12 de cerca (foram utilizadas sobras).

 Colocação da tela com 1,2 m de altura. Dobre a bainha da tela junto ao fundo para depois "ligar" ao concreto do fundo.  Passo 2 – Colocação da tela com 1,2 m de altura. Dobre a bainha da tela junto ao fundo para depois “ligar” ao concreto do fundo.

A execução do reboco contou com 1 dia de pedreiro (R$ 150,00) e uma massa com mistura de cimento (1/2), areia média (2) e argamassa (2). Após a conclusão, algumas “molhadas” na superfície impermeabilizada pelo reboco foram feitas, para ajudar na melhor cura da massa. Aguardamos por três dias para que a cura estivesse efetiva. Somente após esta cura é que começamos o preenchimento.

 Impermeabilização completa.  Passo 3 – Impermeabilização completa.

4) O preenchimento da BET foi realizado com pneus e materiais granulares, com tamanhos desde pedaços (caliça/entulho) + pedra pulmão, passando por brita, pedrisco, areia e, finalmente, o solo local. Os passos de preenchimento são apresentados a seguir.

A câmara séptica é estruturada por pneus enfileirados. Perfuramos um deles para inserir o tubo de entrada (adução) de efluente (água negra).

Furos no pneu para inserção do tudo de adução de águas negras (o que vem do vaso sanitário). Detalhe do rompimento dos arames internos ao pneu com alicate de corte. Detalhe do tudo inserido no pneu.
Furos no pneu para inserção do tubo de adução de águas negras (o que vem do vaso sanitário). Detalhe do rompimento dos arames internos ao pneu com alicate de corte. Detalhe do tubo inserido no pneu.
Separe alguns pneus com pedaços de caliça para facilitar a comunicação com as águas do "tubo" séptico e o material envolvente. Antes de preencher com a caliça, calce os pneus para não haver deslocamentos.
Coloque pedras entre os pneus para facilitar a circulação de água entre a câmara séptica e o entulho. Antes de preencher com a caliça, calce os pneus para não haver deslocamentos.

Preparamos um tubo de 1,5m x 75mm para inspeção do nível d’água dentro da BET. Este tubo foi ranhurado e envolto com geotêxtil (bidim), para evitar a colmatação (fechamento) destas ranhuras. O tubo de inspeção foi posicionado em um dos cantos da vala;

 Cano de inspeção de nível de água. Ranhuras intercaladas. Repare no geotêxtil (bidim).  Tudo de inspeção envolto com o geotêxtil (bidim).
 Tubo de inspeção de nível de água. Ranhuras intercaladas. Repare no geotêxtil (bidim).  Tudo de inspeção envolto com o geotêxtil (bidim). Deixe sem o bidim apenas o trecho que ficará para fora da BET.

A camada de caliça/entulho foi preenchida até a altura dos pneus. Aqui utilizamos um contrapiso antigo e tivemos de agregar rachão (pedra pulmão). Procuramos utilizar somente materiais de restos para baratear, mas como não tínhamos essa opção, gastamos mais com a adição de 2m3 de pedra pulmão (R$ 138,00). Após esta camada, fizemos marcas no tubo de entrada do efluente, com os níveis a serem atingidos com cada material. Foi utilizado 1,0m de tudo 100mm (R$ 2,00) e um joelho de 100mm (R$ 6,00). Os demais tubos e conexões para fazer a adução das águas à BET e ao CB custaram R$ 70,00.

 Marca no tudo para definir o limite superior das camadas de preenchimento.  Marca no tudo para definir o limite superior das camadas de preenchimento.

Após veio a colocação da camada de brita 3/4 que consumiu 1/2 m3 (R$ 40,00). A camada ficou com 7cm de espessura em média.

 Segunda camada de preenchimento com brita 3/4.  Segunda camada de preenchimento com brita 3/4.

Acima desta brita foi colocado o predisco, que consumiu 1/2 m3 (R$ 40,00) resultando em uma camada de 6cm de espessura em média. Li em alguns lugares que neste caso pode ser utilizado o geotêxtil no lugar do pedrisco. Neste caso usa-se brita 3/4 em substituição desta camada de pedrisco. Em nosso caso, optamos pelo uso do predisco para ir gradualmente diminuindo a granulometria do material em direção topo da BET, estimulando, assim, o fenômeno de capilaridade da água.

 Terceira camada de preenchimento com pedrisco.  Terceira camada de preenchimento com pedrisco.

Depois veio a camada de areia média que também utilizou 1/2 m3 de volume (R$ 26,50), gerando uma camada de 12 cm de espessura.

 Quarta camada de preenchimento. Uso de areia média.  Quarta camada de preenchimento. Uso de areia média.

Acima veio o preenchimento com solo local. Aqui no sítio temos uma topografia muito acidentada e aproveitamos para abrir os terraços que se tornarão o viveiro de mudas dentro da zona 1. O preenchimento com solo local ficou na forma de um largo canteiro com uma elevação no sentido alongado da BET com intuito de escoar as águas da chuva que caem sobre a mesma.

5) O plantio de mudas envolveu 0  transplante de indivíduos de bananeiras e inhame, retiradas do próprio sítio. Depois que as bananeiras crescerem suficientemente para gerar boa quantidade de sombra, serão transplantadas mudas de helicônia, outra planta de folha larga também existente no local.

6) Para evitar entrada de águas externas na BET, foi inserida uma vala de escoamento à montante (parte de cima topograficamente – lado esquerdo da foto).

A jusante da BET uma vala de infiltração, com a largura de uma pá, foi implantada e preenchida com brita, areia (restos) e um tubo corrugado de dreno com 100mm de diâmetro e 5m de comprimento (R$ 25,00). Esta vala de infiltração é necessária para dar vazão ao nível superior do solo (horizonte A), que possui boa porosidade e permeabilidade para conduzir excessos em caso de longo período de baixa evapotranspiração (chuvas).

 solo_local  Cobertura com o solo local e inserção das mudas de bananeiras e inhame.

7) Para o tratamento das águas cinzas, as advindas da cozinha, pia e chuveiro do banheiro, máquina de lavar roupas e tanque, o método escolhido foi o tradicional círculo de bananeiras, também indicado pelo colega Itamar do Sítio Sete Lombas. O Círculo de bananeiras foi instalado ao lado da BET.

 circulo_bet_nov_2013 Círculo de bananeiras (direita) e BET (esquerda). Foto de novembro de 2013, nove meses após a implantação.

O esquema implantado ficou conforme o desenho a seguir.

Esquema final de implantação.
Esquema final de implantação.

Os custos de implantação são apresentados na tabela a seguir. Os valores em vermelho podem ser substituídos. No caso da mão de obra, foi necessária a contratação de um pedreiro, pois sou um pedreiro de mão cheia (cheia de massa).  A pedra pulmão pode ser substituída por caliça. Em nosso caso a caliça existente no sítio não foi suficiente para preencher a BET até a altura dos pneus e o valor para transportar uma caliça doada seria superior ao cobrado pela pedra pulmão na madeireira.

Item Valor gasto
Hora de retroescavadeira R$ 80,00
Areia R$ 53,00
Argamassa R$ 34,00
Cimento R$ 83,00
Tela de arame R$ 104,00
Barra de ferro R$ 9,34
Mão de obra R$ 150,00
Pedra pulmão (brita 4) R$ 138,00
Brita ¾ R$ 40,00
Pedrisco R$ 40,00
Tubos e conexões R$ 78,00
Tubo corrugado dreno R$ 25,00
Total R$ 834,34

O tempo de execução é difícil de precisar. Como tive auxílio de apenas 1 dia com ajudante (o pedreiro) posso dizer que:

  • Setembro de 2012 – abertura da vala;
  • Janeiro de 2013 – início da impermeabilização e preenchimento da BET;
  • Fevereiro de 2013 – inserção de mudas e finalização do círculo de bananeiras.

Um muito obrigado à Marcelo Venturi, colega permacultor e especialista em sistemas sanitários, que veio verificar o andamento da obra e sugeriu importantes modificações que foram adotadas.

Em resumo, deu trabalho, mas me sinto confortável para continuar a ensinar em sala de aula este sistema de tratamento de esgoto e…

…não mandamos mais oferendas indesejáveis para Iemanjá.

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